quarta-feira, 14 de junho de 2006

«Política e Religião»

Ontem estive às voltas com a minha documentação digital para actualizar as minhas cópias de segurança, quando deparei com uma crónica que publique no jornal “O Ponto” a 13 de Agosto de 2004, portanto a praticamente 4 anos. Infelizmente, ao reler esta crónica reparei que, no seu conteúdo geral, se mantém actual, apenas ressalvando um ou outro aspecto.

Digo infelizmente porque as críticas que apresentei a quatro anos atrás, feitas no seguimento de dois episódios ignóbeis perpetrados na igreja de Ouca, afinal se mantêm na generalidade.

Assim, e para quem não leu ou para quem quiser ler novamente, segue-se um reprint de “Política e Religião”:

«A política e a religião sempre foram, ao longo da História da Humanidade, uma combinação explosiva que, por vezes, deu azo a grandes abusos que eram cometidos pelas altas esferas do poder – seja ele político ou eclesiástico.

Este tipo de relacionamento assumiu as mais diversas formas que iam da simbiose ao parasitismo. Ora estes poderes actuavam em conjunto, ora estavam de costas voltadas. Mas sempre coexistiram. E coexistem.

No entanto, há um estágio de este relacionamento que normalmente atinge proporções abomináveis, como a que se vive actualmente em Ouca, em que política e religião se misturam, por muito que os seus intervenientes batam no peito e neguem tal acusação. Alias, não é bem uma mistura, é bem pior do que isso: a religião é utilizada como uma fachada para atingir fins políticos. Existe um grupo de pessoas que age em nome da rectidão para humilhar, espezinhar e aniquilar tudo o que feito nesta freguesia desde que organizado pelos visados como opositores políticos. Como diria Zeca Afonso: “Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”. Grupo coral, catequese, leitores, instituição de solidariedade social... tudo o que estiver ligado à Igreja local serve como desculpa para eliminar os adversários. Tudo debaixo de uma pele de cordeiro, sob a qual o lobo age à espera de não ser apanhado mas mais parecendo um elefante em loja de porcelana, tal é o estardalhaço. Nenhuma das instituições está a salvo.

Vale de tudo. Insultos, ofensas, insubordinação, confusão, contra-informação, falsidade, abuso de poder e de confiança. Não se olha a meios. Não se olha para os actos cometidos. Não se olha para as pessoas que foram atingidas. Atacam segundo uma estratégia de “toca-e-foge”: aparecem, envolvem-se nas actividades, atacam e depois desaparecem durante algum até a próxima ofensiva. Apenas interessa exterminar as pessoas que são consideradas incómodas ao poder instalado. Mas também há que reconhecer a astúcia – se é que se pode designar assim – destas pessoas: agem sempre nas situações em que sabem que o risco de haver testemunhas é reduzido e há sempre uma imagem a preservar.

Em Ouca todos sabem quem são estas pessoas e tal rol de nomes é dito à boca pequena. Afinal de contas sempre há o medo de eventuais represálias. Estamos perante um exército constituído por pessoas dos mais diversos quadrantes: homens de negócios, funcionários, estudantes, donas de casa,... Sabe-se que está a decorrer mais uma das suas reuniões secretas quando vemos os seus carros alinhados ao longo da berma de uma das artérias mais movimentadas de Ouca, enquanto na porta é ostentado o aviso “Volto Já”. Todos se encontram ligados através do mesmo fio condutor de assumir o controlo de tudo e nada deixar aos “infiéis” custe o que custar, numa clara atitude que mais faz lembrar o pior do que havia no fascismo, ou não tivessem estas pessoas ligações à direita do espectro político. O mais caricato é que eles escondem os seus verdadeiros propósitos alegando agir desse modo por que se dizem bons cristãos. Houve um que chegou mesmo a dizer-me na sacristia, no final de uma reunião do grupo coral, que, se preciso, também daria a outra face, ao mesmo tempo que batia no peito e se dizia um bom cristão. Pois é... Judas também seguiu a Cristo e foi o que se sabe.»

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