quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril

Uma excelente descrição, feita por José Cardoso Pires no seu romance "Alexandra Alpha", daquela manhã de Abril em que o povo tomou de assalto a rua para agarrar a tão desejada liberdade.

«Estávamos desconfiados, pois a cidade apresentava-se numa aridez de morte. Apareceu-nos sob um céu de cinza branca, secreta despovoada, e, ao alvorecer, essa cinza,essa poalha,começou a ganhar reflexos metálicos. Vimos as luzes dos candeeiros públicos reduzidas a uma palidez gelada e autocarros sem ninguém a circularem naquilo que seria uma praça ou um oco das meias trevas. Vimos um cão crucificado numa cabine telefónica. Ou pareceu-nos. E numa avenida qualquer passou, muito discretamente, um cavalo solitário a arrastar uma carroça com pneus de automóvel.


Porém, a medida que o dia se foi aproximando a névoa derramou-se por dentro, contudo retendo a luz. E começamos a despontar perfis humanos a cada esquina, imóveis, esboços apenas, mas logo nos apercebemos que eram vultos armados, militares de G-3 engatilhada, postados em rigor de conspiração; e descobrimos também, nalgumas clareiras ou abertas que depois se revelariam ser cruzamentos, recantos e terrenos vagos, descobrimos, não era pesadelo, vultos de enormes monstregos adormecidos. Adormecidos, não: em sonolência aparente. Isso, em sonolência calculada, fingida, pois todos eles segredavam mensagens, alô Charlie, alô Óscar, alô Charlie Oito, e todos vibravam numa maquinação contida.

Agora já os reconhecíamos na sua exacta configuração: eram carros blindados, máquinas de guerra metódicas e impiedosas.

Indiferentes, os monstros sussurrantes distendiam lentas e poderosas antenas de aço à procura de orientação. Estavam ali para fazer frente ao dia, e já se arrastavam, já avançavam, de canhão levantado, a sondar e a abrir caminho. Deslocavam-se num debitar de mensagens misteriosas, alô Charlie, alô Óscar, alô Maior de Lima Cinco, e esses apelos eram a bússola, o traçado que os guiava através da madrugada. Assim estávamos, em assombro e inquietação, quando um rasgão súbito o céu se iluminou por inteiro e foi dia.

A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparámos com colunas militares inundadas de sol; e o povo logo a seguir, muito povo, tanto que não nos cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas, de cinquenta anos de morte e humilhação, correndo sem saber exactamente para onde mas decerto para a

LIBERDADE

Liberdade, Liberdade, gritava-se em todas as bocas, aquilo crescia, espalhava-se num clamor de alegria cega, imparável, quase dolorosos, finalmente a Liberdade!, cada pessoa olhando-se aos milhares em plena rua e não se reconhecendo porque era o fim do terror, o medo tinha acabado, ia com certeza acabar neste dia, neste abril, abril de facto, nós só agora é que acreditávamos que estávamos em primavera aberta depois de quarenta e sete anos de mentira, de polícia e ditadura. Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, só agora.»

José Cardoso Pires, in "Alexandra Alpha"

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