sexta-feira, 6 de abril de 2007

O amor

"A vida de Pi", de Yann Martel, é um belo livro que recomendo vivamente ler. Numa primeira parte da história somos convidados a observar a formação religiosa da personagem principal, Pi Patel, enquanto criança. Vive numa comunidade hindu, mas a curiosidade e a procura de "algo mais", leva-o a descobrir o cristianismo e o islamismo.

O trecho que reproduzo aqui, e que vai de encontro a quadra pascal que estamos a atravessar, revela as dúvidas que Pi tem sobre o "Deus cristão". As respostas do padre Martin são lacónicas mas reveladores da essência fundamental do cristianismo, um valor que infelizmente parece esquecido por alguns, mais preocupados, sim, em alimentar o ego e a carteira à custas da igreja.

O trecho e longo, mas vale a pena.

«Compreendia que um deus fosse capaz de suportar a adversidade. Os deuses do hinduísmo enfrentam a sua boa dose de ladrões, fanfarrões, raptores e usurpadores. O que é o Ramayana se não o relato de um longo e mau dia de Rama? Adversidade, sim. Reveses da fortuna, sim. Mas humilhação? Morte? Eu não conseguia imaginar o Senhor Krishna a consentir em ser desnudado, chicoteado, ridicularizado, arrastado pelas ruas, e, para cúmulo, crucificado – e às mãos de simples humanos, ainda por cima. Nunca tinha ouvido falar de um deus hindu que morresse. Brama Revelado não morreu. Os demónios e os monstros morriam, tal como os mortais, aos milhares e milhões – era para isso que estavam ali. A matéria também desaparecia. Mas a divindade não podia ser arruinada pela morte. Isso estava errado. A alma do mundo não pode morrer, nem mesmo uma parte reduzida dela. Era errado da parte desse Deus cristão deixar morrer o seu avatar. Isso equivalia a deixar morrer uma parte de si mesmo. Porque se o Filho vai morrer, isso não pode ser uma falsificação. Se Deus na cruz é Deus na representação de uma tragédia humana, isso transforma a paixão de Cristo na farsa de Cristo. A morte do Filho tem de ser real. O padre Martin assegurou-me que era. Mas um Deus morto, é para sempre um Deus morto, mesmo ressuscitado. O Filho deve ter o gosto da morte para sempre na Sua boca. A Trindade deve ser maculada por ela; deve haver um certo mau cheiro à mão direita do Deus Pai. O horror tem de ser real. Por que deseja Deus isso em si mesmo? Por que não deixar a morte para os mortais? Porquê tornar sujo aquilo que é belo, estragar aquilo que é perfeito?

Por amor. Foi a resposta do padre Martin.

E o comportamento desse Filho? (…)

Este Filho (…) que passa fome, que sofre sede, que se cansa, que fica triste, que está ansioso, que é importunado e mortificado, que tem de tolerar apoiantes que não o entendem e opositores que não o respeitam – que espécie de deus é ele? É um deus a uma escala demasiado humana, é o que ele é. Há milagres, sim, principalmente de natureza médica, uns poucos para satisfazer estômagos humanos esfomeados; no máximo acalma uma tempestade, caminha um pouco sobre água. Se isto é magia, é uma magia menor, ao nível dos truques com cartas. Qualquer hindu é capaz de fazer cem vezes melhor. Este Filho é um deus que passava a maior parte do tempo a contar histórias, a conversar. Este Filho é um deus que caminhava, um deus pedestre – e num lugar quente ainda por cima – com um andar como o andar de qualquer humano, com sandálias por cima das pedras do caminho; e quando usava um meio de transporte, era um burro vulgar. Este Filho é um deus que morreu em três horas, com queixumes, arquejos e lamentos. Que espécie de deus é este? O que há de inspirador neste Filho?

O amor, disse o padre Martin.

E este Filho apareceu apenas uma vez, há muito tempo, mito longe? Este uma obscura tribo numa zona recôndita da Ásia Ocidental, nos confins de um império há muito desaparecido? E acabam com ele antes de ter um único cabelo grisalho na cabeça? Não deixa um único descendente, mas apenas testemunhos dispersos, parciais, as suas obras completas rabiscadas na poeira? Um momento. Isto é mais do que Brama com um caso sério de pavor pelo palco. É um Brama egoísta. É um Brama mesquinho e injusto. É Brama praticamente não manifesto. Se Brama há-de ter apenas um filho, ele deve ser tão pródigo como Krishna com as leiteiras, não? O que poderia justificar semelhante avareza divina?

O amor, repetia o padre Martin.»

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