sábado, 16 de junho de 2007

Tragédia sanguinária...

«À entrada do bloco esperava-nos o terror... Soldados, ou o que restava deles, e um bocado por todo o lado, faziam bicha deitados em macas, naquele exíguo espaço que não fora dimensionado para semelhante afluência. Os enfermeiros de serviço procuravam fazer a triagem da situação, identificar sumariamente a identidade e o estado das vítimas, ao mesmo tempo que corriam connosco de lá para fora. As portas do bloco operatório, sempre a abrir e a fechar, mostravam de forma intermitente a tragédia desta guerra... a mais sanguinária que se possa imaginar:

Soldados a serem amputados de uma ou mesmo das duas pernas, em condições de trabalho impensáveis! Aqueles médicos só sendo super-homens ou super-dráculas, poderiam aguentar um turno daquela carnificina, não havia meio-termo...

Os cheiros a suor,sangue, calor e outros mais pestilentos, misturados com gritos lancinantes, transformavam aqueles profissionais em monstros/deuses com gestos sempre bruscos e mecanizados. Nenhum sentimento ou emoção parecia cobrir-lhes o suor a correr em bica dos rostos; apenas o frenesim nas serras a cortar a carne e os ossos para desgraçar a vida, mas matar a morte..."

João Carlos Sarabando, in "As Hienas Também Choram"

Sem comentários: