segunda-feira, 16 de julho de 2007

Noite de perdedores

Das eleições intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa (CML) podemos concluir que os partidos políticos foram os verdadeiros derrotados. Uma abstenção de quase 63% e a conquista de 5 vereadores por duas listas independentes são bem elucidativas da hecatombe sentida pelos aparelhos partidários no final da última noite eleitoral.

Para além deste aspecto generalizado, os partidos sentiram também a derrota de forma mais particularizada.

O PS é sem dúvida um dos grandes derrotados da noite. Apesar da conquista da presidência da Câmara Municipal de Lisboa, esta não deixa de ter um travo bastante amargo. Atendendo à fragilidade política que levou à queda da CML, o Partido Socialista não conseguiu extrair os dividendos políticos que lhe permitissem a tão almejada e exigida maioria absoluta. De facto, o resultado ficou muito aquém daquele ao que o PS certamente esperava conseguir, mesmo que aleguem que se trata do melhor resultado do PS em 31 anos na capital. Basta olhar um pouco para atrás e comparar o resultado do PS nas eleições legislativas de 2005, onde conseguiu 42,48% das intenções de voto, com o resultado da última noite: 29,54%. Uma derrota.

O PSD foi outro dos grandes derrotados. Ao "tirar o tapete" a agora ex-presidente Carmona Rodrigues abriu definitivamente as portas para as eleições intercalares. Fernando Negrão não conseguiu capitalizar o eleitorado que se manteve firme junto de independente Carmona, tendo ficado mesmo em terceiro lugar. A juntar a isto temos ainda o sentimento de responsabilização que foi dirigido contra PSD pela actual situação política da CML (afinal de contas, Carmona Rodrigues foi o candidato do PSD nas eleições anteriores) que, naturalmente, prejudico o resultado final nestas eleições intercalares. Hombridade não faltou a Marques Mendes para assumir o falhanço da estratégia eleitoral (ao contrário de Sócrates e António Costa que facilmente se contentaram com "trocos") tendo já antecipado eleições directas no partido, não sem anunciar que será também candidato. Um tira-teimas para avaliar se tem condições de política interna para se manter à frente do partido.

Profundamente derrotado nestas eleições foi indiscutivelmente o CDS/PP. Paulo Portas, que muita promessas fez de ser uma forte oposição ao governo socialista, tem demonstrado uma passividade quase mórbida. A tal oposição activa que tanto apregoou durante a sua campanha para eleição à presidência do partido não passou, para já, de canção para embalar os seus eleitores internos.

Telmo Correia foi um lamentável erro de casting. Pode ser um homem do aparelho partidário, mas não passa disso mesmo: um homem do aparelho. Telmo Correia não é decididamente pessoa com perfil para concorrer como cabeça de lista para umas eleições autárquicas. Numa eleição legislativa até pode encabeçar uma lista distrital, mas trata-se de um nome diluido num rol de nomes de onde apenas se destaca o candidato a Primeiro-Ministro. Os "miseráveis" 7258 votos amealhados, que lhe dão uma marca de 3,7% de intenções do voto, não permitiram ao CDS/PP de Paulo Portas eleger um único vereador. Nem um! Uma derrota quase vergonhosa para um partido que se diz querer ser mais interventivo. Trata-se de um resultado que coloca o CDS/PP atrás da CDU e do Bloco de Esquerda, este último tendo conseguido praticamente o dobro dos votos do CDS/PP.

A vitória está de facto do lado do Carmona Rodrigues e de Helena Roseta. Foram eles que, sem dúvida alguma, dispersaram os votos que tanto procuraram os aparelhos partidários, tendo conquistado 5 dos 17 vereadores possíveis, três para a lista do Carmona Rodrigues e dois para a lista de Helena Roseta.

A vitória da Helena Roseta tem ainda um sabor especial: é a segunda vez que Sócrates envereda pelo caminho do "eu é que sei", preterindo a candidatura de Helena Roseta pelo PS em favor da candidatura de António Costa. Foi assim com Manuel Alegre, para as eleições presidenciais, foi assim agora com a Helena Roseta, perdendo deste modo a possibilidade que foi servida de bandeja ao PS de conquistar a maioria absoluta na Câmara de Lisboa.

Três pequenos apontamentos ainda sobre a última noite eleitoral:

- A altivez de Manuel Maria Carrilho ao falar dos "próximos seis anos" de António Costa frente à Câmara Municipal de Lisboa;

- O descalabro da direita, nas palavras de Jorge Coelho, convencido ainda de que o PS é um partido de esquerda;

- A maneira como Sócrates surge junto dos candidatos "vencedores". Estranho que não tenha aparecido na Madeira aquando das últimas eleições regionais, onde o PS teve um dos seus piores resultados.

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