quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Assim começa "O Malhadinhas"

"Quando comecei a pôr vulto na mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, porcada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra - eu cá nunca me avistei com ele - mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.

Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço. E, quanto mais cismo, mais dou razão ao Miguelão da Cabeça da Ponte, que falava como um livro aberto, o grande bruxo. Muitas vezes lhe ouvi dizer quando estava de boa lua, o que nem sempre sucedia:

- Tempos virão em que o governarão as terras vãs e os filhos das barregãs"


Aquilino Ribeiro, in "O Malhadinhas"

Cavaco considera Aquilino um dos “grandes prosadores” da literatura portuguesa

1 comentário:

O Profano disse...

Este post trouxe uma agradavel Lembrança dos meus tempos de escola e é um bom livro este que escolheu.

abr...prof...