sábado, 27 de outubro de 2007

Muito Alta Tensão

A REN - Redes Energéticas Nacionais tem sido nos últimos tempos alvo de cobertura mediática devido à construção de novos perfis de linhas de transporte em Muita Alta Tensão.

A indignação e as manifestações dos moradores de Amadora e de Sintra por causa da passagem da linha de Muita Alta Tensão entre Fanhões e Trajouce rapidamente deu eco à oposição encontrada noutras localidades onde outras linhas estão a ser montadas, num efeito de bola de neve que culminou esta semana com uma greve de fome em frente à Assembleia da República.

Moradores de Sintra, Amadora, Odivelas, Guimarães, Almada e Estói têm-se manifestado contra o facto de verem as suas residências serem "banhadas" pelos campos electromagnéticos, e não radiações como por vezes tenho ouvido incorrectamente a ser afirmado, provocados pelas linhas que irão ter, ou já têm, a poucos metros das suas habitações.

Acena-se com a bandeira do cancro e de um sem número de doenças que estes campos poderão trazer a todos aqueles que passaram a ter como vizinhos aqueles apoios, ou torres, onde são suportados condutores eléctricos que transportam centenas de amperes a tensões na ordem das centenas de milhar de voltes.

São apontados estudos - se bem que nunca ninguém tenha dito especificamente quais - nos quais a saúde pública é posta em risco pela exposição aos campos de muito baixa frequência (campos ELF-extreme low frequency) , dentro dos quais se encontram os campos gerados pela nossa rede eléctrica que se encontra a funcionar a 50Hz (ou 50 ciclos por segundo, se preferirem).

Por outro lado temos a REN a afirmar que não está provado que a exposição aos campos ponha em risco a saúde pública. Em comunicado publicado no sítio da REN podemos ler que «dos trabalhos de investigação, conduzidos a nível internacional pela comunidade científica há mais de trinta anos, continua a não ser possível encontrar qualquer relação significativa entre a exposição aos campos electromagnéticos de muito baixa frequência, como é o caso dos associados à utilização da energia eléctrica, e a ocorrência de problemas na saúde dos seres vivos».

De facto, este é um assunto que de novo não tem nada. Desde a publicação de um dos primeiros estudos epidemiológicos [1], onde se mostrava um eventual aumento de risco de leucemia infantil devido à exposição a campos ELF, que se tem verificado um aumento do interesse público sobre este assunto, um interesse que por sua vez tem despertado preocupações junto das populações que moram junto destas estruturas de transporte de energia.

Passados trinta anos, continua a não ser de facto estabelecida uma relação de causa-efeito entre as linhas de alta tensão e a saúde pública. O trabalho apresentado por Wertheimer e Leeper em 1979 [1] tem sido contrariado várias vezes, como por exemplo em [2] e [3], e ao mesmo corroborado, como por exemplo em [4] e [5]. Existem inúmeras discussões entre investigadores da área, onde é argumentada a validade dos resultados e a forma como estes foram obtidos nos mais diversos trabalhos que têm vindo a ser publicados.

Apesar de apenas me ter referido a trabalhos onde foi abordado o estudo sobre a leucemia infantil, o panorama repete-se mais ou menos da mesma forma, mais consensual aqui, mais polémico ali, o que permite ter uma ideia da dificuldade que este assunto representa do ponto de vista científico.

Mesmo atendendo aos grandes contornos que este assunto merece, não consigo entender como é que o Presidente da Assembleia da República vem prometer, direi eu, quase de forma leviana, um estudo sobre os efeitos das linhas de Alta Tensão. Trata-se de um assunto que já vem a ser estudado a trinta anos e Jaime Gama parece estar convencido que agora irá conseguir obter o estudo derradeiro que esclarecerá todas as dúvidas de uma vez por todas. Das duas uma: ou não sabe do que está a falar ou foi apenas "fogo de vista" para despachar a comissão de moradores que se deslocou a Lisboa para protestar contra a instalação das já referidas linhas de Muito Alta Tensão.

Muito mais haveria a dizer sobre este assunto. As posições alarmistas dos moradores e a posição optimista da REN são, na minha opinião, demasiado extremistas. O certo é que passados quase trinta anos continuam a não haver certezas, e é precisamente das incertezas que nascem os receios. Apesar de o Princípio da Precaução poder ser tido em conta nestas situações, este muitas vezes tem dificuldades de se impor perante interesses económicos.

No fundo, tudo isto faz lembrar a problemática da instalação de uma lixeira: todos produzem lixo, mas ninguém quer saber de uma lixeira ao pé de casa.

[1] N. Wertheimer, E. Leeper,
Electrical wiring configurations and childhood cancer, American Journal on Epidemiology, vol. 109, no. 3, pp. 273-284,1979

[2] Martha S. Linet, Elizabeth E. Hatch, Ruth A. Kleinerman, Leslie L. Robison, William T. Kaune, Dana R. Friedman, Richard K. Severson, Carol M. Haines, Charleen T. Hartsock, Shelley Niwa, Sholom Wacholder, Robert E. Tarone,
Residential Exposure to Magnetic Fields and Acute Lymphoblastic Leukemia in Children, New England Journal of Medicine, vol. 337, no. 1, pp. 1-8, 1997

[3] David Jeffers, Transmission lines, EMF and population mixing, Radiation Protection Dosimetry, vol. 123, no. 3, pp. 398-401, 2007

[4] Gerald Draper, Tim Vincent, Mary E Kroll, John Swanson, Childhood cancer in relation to distance from high voltage power lines in England and Wales: a case-control study, BMJ, vol. 330, pp. 1290-, 2005

[5] R. M. Lowenthal, D. M. Tuck, I. C. Bray, Residential exposure to electric power transmission lines and risk of lymphoproliferative and myeloproliferative disorders: a case-control study, Internal Medicine Journal, vol. 37, no. 9,pp. 614–619, 2007

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